segunda-feira, 23 de maio de 2011

DIÁRIO DE UMA PROFESSORA, p.3

Sei que o Brasil inteiro está conhecendo minha amiga Amanda Gurgel. Amanda formou-se comigo e com um monte de gente apaixonada pela profissão, ou que era apaixonada. Nossa turma foi batizada de Diadorim. Diadorim é a famosa personagem guerreira do livro Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa. A mulher que se veste de jagunço pra poder lutar pelo que acredita e conseguir ser respeitada.

Tudo que Amanda fala é verdade. Todo mundo que frequenta o ambiente escolar (público), seja como professor, seja como aluno, seja como pai ou mãe de aluno sabe disso. Falo isso porque não são todos os pais que frequentam. Quando fazemos reunião na escola vemos o quão difícil é levar 50 ou no máximo 100 pais em uma escola que possui, em média, 400 alunos matriculados por turno.

Amanda está apenas sendo um rosto e uma voz. Pena mesmo é não vermos um rosto e uma voz destes pais e destes alunos. Lutamos por nós e lutamos por eles. Não gostaríamos de vê-los sendo tratados como 'coisas' que precisam de déposito. "Coisas" que não precisam de instrução porque para o governo são apenas números. Números não são rostos. Não são nomes.

Quando entramos em greve 5% dos alunos realmente se preocupam com a falta de aulas, com a falta de oportunidades para aprender com os professores, de tirar dúvidas, de exercitar. Os outros, em um primeiro momento, gostam, pois vão poder ficar em casa. Depois vem o tédio, o "saco" de não poder encontrar com os amigos, de não poder matar aulas conversando no pátio ou exibindo o novo celular ou mp3 super potente. Pra esses alunos tanto faz se a escola não tem merenda - até porque eles têm vergonha de lanchar - , tanto faz ter ou não ventiladores decentes nas salas - porque eles não assistem aula mesmo, tanto faz se tem água nos banheiros ou se o quadro de professores está completo - quanto menos professores, mais horários vagos.

 Nós não podemos motivar todos esses alunos. Não podemos ir para o trabalho buscando fazer mágica. Buscando uma aula que chame a atenção deles. Difícil agradar 40 pessoas em 50 minutos.  O que ninguém comenta é que tipo de vida tem esse aluno. O que ele vive quando está fora da escola. Como eu posso motivar um aluno que chega a escola tão drogado que não consegue focar o olhar? Que não abre o caderno porque está usando as folhas pra fazer seu ... Ou uma aluna que acha que a vida já está predestinada porque engravidou aos 16 anos e sabe que depois do parto talvez nem volte para a escola?
Como motivar um aluno que tem que trabalhar pra sustentar a mãe e os irmãos e não consegue estudar em casa? Um aluno que quando chega a escola está tão cansado que só pensa em dormir? Um aluno que não consegue ser atendido no posto de saúde? Ou o que falar dos meus alunos que já foram assaltados inúmeras vezes no caminho para a escola?

O professor hoje tem que ser o psicólogo, o amigo, o irmão, o pai, a mãe, o segurança, o mágico. Tem que ser tanta coisa pra que esse aluno queira estar dentro da sala que não consegue ser ele mesmo.
Quantas Amandas serão necessárias para acordar estes alunos? Sei que o governo do nosso Estado tenta colocar a população contra a nossa classe, mas meus alunos não são idiotas. Eles sabem o que vivem. Tá na hora de lutarem junto. Sei que muitos estão concluindo os estudos sem sequer ter vontade ou coragem pra tentar um vestibular porque já acreditam serem incapazes. Não, vocês não são. Mas mesmo que vocês não queiram lutar por vocês, lutem pelos seus filhos.

Afinal, quem quer fazer algo arranja um jeito, quem não quer arranja uma desculpa.

"Você nunca sabe que resultados virão da sua ação.
Mas se você não fizer nada, não existirão resultados."
Gandhi

Um comentário:

  1. A cada geração de alunos, o desinteresse deles só aumenta! Frustração constante da nossa categoria.

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